27.2.07

Súplica

Coração sem dono que vaga
Luz dispersa na névoa, mágoa.
Conforto nas linhas escritas
Promessa nas palavras faladas

Imediata corrida contra o tempo
Casa, filhos, carreira... vento.
Uma vez decidida, pára
E encara de frente a investida.

Afinados desejos e mentes
Sofrida caminhada percorrida?
Mente para si mesma e suplica

Calada vela o sono daqueles
cujo júbilo inveja, e encerra
em si o segredo que palpita, a vida.

10.8.05

Retrato de Família

O roupão azul, e as pérolas
O laço cor-de-rosa, e a bola
Dispersos... expressos
A poltrona de couro, Família
Reúne na moldura a vigília
Dos perdidos... vivos
No dia-a-dia da casa
Uma voz se faz calma e sensata
E quando menos se espera, falta.

Sonhos e tropeços
Amores e ruína
Castigos e desejos
Feitos beijos
Passam como se fossem de ar

Os olhos serenos, as posturas de gesso
O ar rarefeito, o cheiro do tempo
Nas máscaras, o apreço desfeito.
Na calada da noite, o solfejo
Da menina encerrado no peito
E que chora, sem rancor, ao vento.

10.4.05

The End

And one day, you turn the page and there's a written:

"THE END"

right in the middle of the page.

No conclusion. No reason. No time.
No last kiss and no second chance.
No trip to the beach, no birthday gift, no smile... just grief.

Sometimes I'm left to wonder
about time, about life, about lies, about choices
and no-one's right, there's no advice, just sobs and cry.

Tell me something I don't know.
Give me lies I haven't been told, an excuse I haven't grown
And my mind is about to blow, my blood just stopped to flow.

Sat on the floor, watching the day goes by. Lies and deception. Dusk outside. Morning again and I haven't stopped to cry. Nice. Cry, cry, cry. Your mind is about to crack, your sight is becoming black and no-one cares.

21.3.04

O Olhar

Era manhã. Apenas alguns poucos raios de sol atravessavam as frestas da janela e denunciavam o dia que acabara de raiar. Nada, porém, desviava seu pensamento daquele corpo parcialmente coberto pelo lençol, que se estendia ao seu lado. A sensação por dentro era de ternura pura; no coração, um misto de conforto e segurança, como se nada pudesse atingi-la. Ali ao seu lado, estava seu guardião, aquele que a defenderia de qualquer ameaça. Ali, adormecido, estava o seu amor.

Com uma rápida olhada ao redor, percebeu onde estava. Sala de estar da casa dele, onde caíram no sono assistindo DVDs na noite anterior. O colchão, mal acomodado entre o rack da TV e o sofá de visistas. Sobre a mesa da sala de jantar, logo ali ao lado, estavam a garrafa de vinho branco e as caixinhas de comida chinesa. "Romântico, no mínimo", pensou. Queria levantar e limpar aquela bagunça. Senso prático, dizia ela, "mania de querer resolver tudo", diria ele. Ele.

No mesmo instante, voltou-se novamente para seu príncipe adormecido. Ele parecia feliz; um daqueles sonos bem resolvidos, em que dá até pra deduzir que está sonhando. Seus traços, delicados para um homem de sua estatura - mais de 1,90m - delatavam sua tenra idade: 19 anos recém completos. Sua pele alva contrastava com a tatuagem nas costas, do lado direito. Uma frase em ideogramas japoneses. "Você fala japonês?" perguntou. "Não, mas eu sei que é isso mesmo o que está escrito". Ele confiava mesmo nas pessoas.

Absorta nesses pensamentos, olhava displicentemente para ele, como se pedisse para que acordasse. Um flash de luz atravessou seu cérebro, como um raio: "Então isso é felicidade!". Desejou que aquele momento não tivesse fim. Pediu que lhe permitissem acordar assim todos os dias pro resto de sua vida.

De repente, algo interrompeu seu devaneio. O príncipe semi-desperto ergueu os braços e envolveu-a num abraço tenro e descompromissado, mas ao mesmo tempo firme e com um quê de "não me escapas mais". Ela sorriu com o coração; deu-lhe um beijo no rosto e olhou em seus olhos. Viu a felicidade escondida no fundo de um olhar sinceramente apaixonado. Um olhar, que por mais que tenha buscado depois, anos a fio, nos olhos e nos braços de outros homens, nunca mais encontrou.

Era um misto de alegria, segurança e conquista. Não era sedutor ou provocativo. Era singelo, quase ingênuo, meigo à sua maneira, mas acima de tudo, verdadeiro. Era como se o amor fosse visível, quase palpável. Estava nos olhos daquele rapaz, naquela manhã de domingo, às sete horas da manhã, quatro anos atrás. Mais uma vez ela desejou que o momento não acabasse jamais. Pensou com força, como uma súplica, para que os deuses lhe permitissem acordar assim, com ele, pro resto da vida. E então não pensou em mais nada.


Este blog será construído a partir de idéias de textos, poemas, ensaios sobre temas diversos. A quem se dispuser a ler, eu prometo diversão, e se isso não for possível, pelo menos algum de conhecimento novo. ;-)